Intolerância religiosa dos cultos da Universal invadindo a TV Pública

De Matheus Araújo, publicado em 29 de dezembro de 2018

O que estava passando no momento em que sintonizei a TV era um quadro chamado "Eu fui vitima de um ritual", agora imagine que tipo de ritual foi esse.

Foto tiranda a partir de uma das edições do programa Eu fui vítima de um ritual, exemplo de intolerância religiosa

Forte intolerância religiosa presente em telecultos da Universal

Tive uma pequena decepção essa tarde ao ligar a TV, sintonizando na afiliada da TV Cultura em minha região, me deparei com mais um daqueles telecultos da IURD, até aí nada demais até por que manter a estrutura de uma emissora de TV tem seus custos, e nem todas são capazes de pagar sozinhas. O que me deixou assustado, foi a tamanha ignorância do canal público ao que estava sendo exibido, telecultos são praticados por praticamente todas as religiões, algumas mais outras menos, e já afirmo que não tenho nada contra isso, mas posso dizer que a Universal passa um pouco dos limites.

O que estava passando no momento em que sintonizei a TV era um quadro chamado “Eu fui vitima de um ritual“, agora imagine que tipo de ritual foi esse. Vamos voltar um pouco no tempo, o ano é 2004 e uma certa emissora ligada a IURD, a chamada TV Record, foi processada pelo Instituto Nacional de Tradição e Cultura Afro-brasileira (Intecab) e o Centro de Estudos das Relações de Trabalho e da Desigualdade (CEERT), pelas varias ofensas que as religiões de matriz africana vinham recebendo nos últimos anos na emissora.

A Record exibia na época do processo um programa chamado “Mistérios”, a atração apresentada por pastores da IURD dava espaço a depoimentos de supostos ex-praticantes religiosos da cultura afro, com foco na demonização dessas práticas. O programa associava os cultos afro-brasileiros a doenças e desvios de caráter. Com todo o poder do bispo Pedir Mais Cedo Edir Macedo, o processo ficou parado por vários anos, até que em 2015 finalmente teve uma possível solução. A Record estava sendo condenada a exibir 16h de programas destinados as religiões afetadas pelas ofensas, a própria emissora seria obrigada a ceder seus estúdios, equipamentos e funcionários aos lideres religiosos, pareceu que finalmente o culto afro-brasileiro teria seu direito de resposta, após anos de fortes ofensas as suas crenças, mas só pareceu mesmo. Em 7 de junho deste ano, o desembargador Nery Júnior, do Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF-3) suspendeu a decisão, a Record saiu ilesa, mas o culto afro sofre até hoje.

O programa “Mistérios” não é muito diferente do “Eu fui vitima de um ritual” ou tantos outros que compõem a grade dos telecultos da Igreja Universal do Reino de Deus e que ocupam várias horas de pequenas emissoras de TV em todo o Brasil. Não acho que essa intolerância venha acabar tão cedo na tela da TV aberta, mas o que me irrita é ver esse tipo de conteúdo em canais de TV públicos. A TV Cultura foi eleita em 2015 o segundo melhor canal de TV do Mundo, atrás apenas da BBC, uma afiliada de um canal tão importante para nosso país jamais deveria aceitar intolerância religiosa. Tenho certeza que a Fundação Padre Anchieta preza pelo respeito e como o próprio nome de sua emissora mostra, pela cultura.

Faço um apelo a TV Nova Nordeste, a tal afiliada aquém estava falando, que procure cuidar mais de sua grade, entendo que não é fácil se manter no ar com uma programação premiada e de qualidade, num país que preza por conteúdos desprezíveis que nada tem a acrescentar. Não precisa acabar com a parceria com a IURD, mas lembro que vocês é que são os donos do canal e que podem exigir algo que esse país tanto necessita hoje em dia, respeito, não aceitem que os produtores desses telecultos desviem os ideais da melhor TV Pública deste país.

Matheus Araújo

Amante do cinema de animação é estudante de História da UNEAL. Mantém a 5 anos o Mamfonline no ar.

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