Bacurau precisa estar no mapa?

De Matheus Araújo, publicado em 9 de setembro de 2019

Uma breve análise sobre o filme Bacurau, o mais novo nordestern brasileiro.

Elenco de Bacurau em cena

Povo de Bacurau em momento fantástico do filme. Foto: Divulgação

Bacurau é um povoado, um lugarejo que nem aparece no GoogleMaps, tem praticamente uma única rua, com casas rodeando as margens, parecendo contas de um rosário, tendo a igreja ao final, representando a cruz, mas não se preocupe, o povoado chamado Bacurau não existe, por outro lado, existem vários lugares como Bacurau pelo Brasil. A vida aparenta ser calma em comunidades como Bacurau, lugares esses que de tanto tédio os jovens correm para a cidade grande, em busca de mais emoção, mas, esse não é o caso do fictício povoado que dá nome ao filme, por um lado é, já que boa parte da população é idosa, mas sem a parte do tédio.

Quando o professor da Escola João Carpinteiro procura aliar a tecnologia em atividades pedagógicas mais interativas, percebe que nem sempre podemos confiar nesses meios e logo parte para um modo mais analógico de ensinar, talvez tenham mesmo esquecido que colocar Bacurau no mapa. Mas, é… por que Bacurau não está no mapa? E por que exatamente Bacurau precisaria estar num mapa? Quantas pessoas que não vivem em Bacurau precisam de Bacurau? A resposta pode ser: nós não precisamos de Bacurau, mas Bacurau precisa de nós, por que nós somos eles e eles, somos nós; mas também podem existir várias outras respostas. Basicamente, o filme do Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles surge quando os atuais governantes querem suprimir as minorias em detrimento das maiorias, e Bacurau é um povoado habitado por uma minoria que pode muito bem ser desprezada por um político corrupto. Ou seja, para a atualidade, existe o “nós” e o “eles”, nós somos a prioridade e deles cuidamos depois.

Bacurau não é prioridade, mas isso pode mudar quando surgem novas oportunidades, ou mesmo novas ordens. Quando podemos admitir que somos vira-latas? Existem seres superiores e eles estão no exterior? Nós somos como eles? Na minha opinião, Bacurau mostra diversos arquétipos do brasileiro e esse filme não se reduz apenas a uma crítica política, mas a uma visão de como poderá ser o Brasil se continuarmos seguindo o caminho que percorremos a anos. Mas o pequeno povoado de Bacurau não se entrega aos mandos e desmandos dos poderosos, o que já é mostrado no início, a partir da forma carinhosa com a qual tratam o prefeito de Serra Verde, e é essa característica que torna Bacurau um filme de resistência.

Se o mundo quer esquecer Bacurau, Bacurau não quer ser esquecido, um prédio da cidade me chamou muita atenção, por provar que os habitantes daquele lugar procuram preservar sua história, refiro-me ao Museu Histórico de Bacurau, onde boa parte do enredo se passa. O museu no filme torna-se não somente um lugar para expor objetos com valor histórico, mas também a ter seu valor histórico, pois o prédio se torna parte da história. Lembro quando uma das personagens pede para limpar todo o chão, só não toque nas paredes.

Acabei repetindo bastante a palavra Bacurau nesse texto, mas por uma boa causa, não esqueça Bacurau e principalmente, não esqueça o Cinema Nacional, propositalmente não quis revelar muito sobre o enredo do filme, por que quero que você veja. E sobre Bacurau precisar ou não estar no mapa, isso é uma decisão que você mesmo deve tomar.

Leitura complementar:

  1. Matéria do ELPAÍS sobre o povoado da Barra, onde ocorreram as gravações de Bacurau: Barra, o povoado que ‘Bacurau’ colocou no mapa por Étore Medeiros
  2. Crítica do portal Omelete: Crítica de Bacural por Marcelo Hessel

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Matheus Araújo

Amante do cinema de animação é estudante de História da UNEAL. Mantém a 5 anos o Mamfonline no ar.

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