Vamos falar de Faroeste Espaguete – parte 01

De Matheus Araújo, publicado em 7 de fevereiro de 2020

Faroeste espaguete, filmes de faroeste feitos por italianos, gravados na Espanha e com atores estadunidenses, como esses filmes influenciaram o cinema?

Faroeste Espaguete

O Harmônica, personagem que me fez ter vontade de tocar gaita

Descobri há uns meses minha nova paixão (não, não essa paixão, é aquela que temos com coisas e não com pessoas), e qual é? Óbvio, o faroeste, mas não o faroeste feito nos Estados Unidos (tentei até assistir alguns clássicos desse gênero, mas minha maior crítica é que eles não são épicos o suficiente (antes de você me colocar na forca, abro mais esse parêntese para informar que não assisti muitos faroestes estadunidenses, por isso você está livre para indicar-me alguns) e fecho mais esse último parêntese) voltando ao assunto, o gênero especifico de faroeste que me despertou a curiosidade é aquele feito por italianos, gravado na Espanha com vários atores estadunidenses (sim, parece bem específico, mas existem pelo menos 500 filmes desses que chamam de Faroeste Espaguete). Se você sabe do que estou falando, deve imaginar por onde eu comecei, e dificilmente eu encontraria uma forma melhor do que iniciar com os filmes do Sergio Leone.

Primeiramente, o clássico “Era uma vez no Oeste”, logo após a famosa Trilogia dos Dólares (nessa eu assisti invertida, começando pelo incrível “Três homens em conflito”), todos do Leone. Depois de ouvir aquela trilha sonora magnífica do Ennio Morriconi que temperava cada uma dessas películas (sim, estou usando “película”, acho uma palavra bem elegante), me veio vontades que jamais tive em minha vida, aprender a tocar gaita (depois de procurar por dias uma gaita boa, desisti), tive interesse até por tocar guitarra e violão (ainda não sei ao certo se desisti desses interesses). Além da trilha sonora, tem o “fator-leone”, esse jeito incrivelmente épico de gravar, com foco direto nos olhos dos personagens, câmeras subindo mostrando a imensidão dos desertos estadunidenses (que na verdade eram espanhóis) e os tiros, aquele sonzinho de tiro que se repetia várias e várias vezes durante o filme (parecia uma constante física, que determinava que todo tiro geraria exatamente aquele som, sem qualquer variação possível). Outro detalhe importantíssimo do Leoni são as cenas finais, com os duelos incrivelmente bem pensados (vale destacar que percebi alguns outros filmes imitando os duelos do Leone), para saber do que estou falando é só assistir os filmes.

Informo que cheguei sim a assistir aquele filme do diretor que transitava pelo gênero da comédia no faroeste, não é do tipo de filme que você vai morrer de rir, mas tem muitas cenas bem interessantes. Ouvi dizer que Leone não estava a fim de gravar esse filme, talvez tenha sido o motivo de o longa não ser comparável aos outros do diretor. Para os curiosos o nome da película é “Quando Explode a Vingança”. Mas voltando a falar de coisa boa, quer saber qual é meu veredito sobre os filmes do Leone, então vou listar para vocês.

Em primeiríssimo lugar está, “Três Homens em Conflito”, que no título original é chamado de “Il buono, il brutto, il cattivo”, isso por vários motivos. Pela evolução dos personagens, existe o retorno de figuras que apareceram em filmes anteriores como o “Homem sem nome” interpretado pelo Clint Eastwood, esse sendo o bom; o Olhos de Anjo interpretado pelo Lee Van Cleef, esse sendo o mau e o Tuco interpretado pelo Eli Wallach, que mesmo que todos compartilhassem da mesma característica, só ele era considerado feio. E é claro, eu já falei anteriormente da música do Morricone, e essa é magnífica, mesmo que você não tenha assistido esse filme, deve muito provavelmente conhecer esse clássico das trilhas sonoras no vídeo logo abaixo. E no final do filme temos o mais incrível duelo de três pessoas que já vi, acompanhado é claro por uma trilha igualmente incrível. Só quero que você veja esse filme para comprovar o que estou falando.

Em segundo lugar, na minha lista está o “Por uns dólares a mais”, dentro da trilogia é nesse filme que aparece o personagem do Lee Van Cleef para contracenar com o Clint Eastwood. Os dois formam uma especio de parceria em busca como o título sugere, de uns dólares a mais, e ainda é especificada a ocupação do Homem sem Nome (Clint), um caçador de recompensas que só quer juntar um dinheirinho para viver na fazenda. É nesse filme que tem a cena dos tiros no chapéu, e outra música famosíssima do faroeste. Uma curiosidade é que Leone precisou fazer o segundo filme em um estúdio diferente do primeiro, daí vieram uns problemas de direitos autorais com o personagem do Homem sem Nome, o antigo estúdio afirmava que o personagem do novo filme pertencia a ela, mas Leone rebatia afirmando que não era o mesmo personagem. Nesse filme também tem uma cena de duelo incrível que brinca com as expectativas de quem assiste, isso fazendo jogo com a música.

Em terceiro lugar está o “Era uma Vez no Oeste”, o filme que Leone fez para homenagear todo o gênero do faroeste, e fez isso de forma brilhante. Ele junta nesse longa as características de seus filmes anteriores, música, personagens, etc, com elementos comuns em filmes de vários outros diretores. É um filme lindo, esse foi o primeiro faroeste espaguete que assisti. Se passa numa região que está prestes a passar pela construção de uma linha férrea e os personagens ficam brigando pelos benefícios do desenvolvimento que ela trará. Isso faz meio que um contraponto entre a selvageria dos pistoleiros e o mundo moderno. Foi esse longa que despertou minha vontade de tocar gaita, tudo por causa do personagem conhecido como Harmônica (que tem uma construção bem interessante no filme, baseada em traumas de infância).

E em quarto lugar “Por um punhado de dólares”, esse é o filme que fez Leone ser conhecido no Mundo, e estabeleceu de vez o faroeste espaguete no mundo do cinema. É a primeira vez que o personagem do Clint Eastwood, o Home sem Nome aparece, foi também o filme que estabeleceu Clint no mundo do cinema. A música do filme também é magnífica, até por que como em todos os outros filmes, a trilha é assinada por Ennio Morricone. Uma curiosidade é que essa foi uma refilmagem “não autorizada” do Yojimbo do também gênio Akira Kurosawa, e também gerou uns perrengues para o lado do Leone.

Para o artigo não ficar extremamente longo, vou dividir o texto em partes, essa obviamente é a primeira parte, muito em breve publicarei as próximas. Mas para vocês se aprofundarem no Faroeste Espaguete, recomendo esse episódio do podcast Clacast.

Matheus Araújo

Amante do cinema de animação é estudante de História da UNEAL. Mantém a 5 anos o Mamfonline no ar.

Loja

Teste o Kindle Unlimited gratis por 30 dias

Tenha acesso ilimitado a milhares de eBooks para ler à vontade!